sábado, 28 de novembro de 2015

Fones nos Ouvidos

Na cabeça de Anna Clara, os sons se misturavam. Era como se pensasse em vários idiomas. Ás vezes, nem ela sabia traduzir seus pensamentos. Andava, então. Se pegava passeando pela rua, de repente. Notando os sapatos das pessoas, imaginava seus armários. Vendo os gravetos, sonhava ser um pássaro. Ouvindo as buzinas, pensava nas tantas mortes sobre o asfalto.
Hoje o dia foi fácil. Nessas horas, bastava um par de fones nos ouvidos para ensurdecer. Com a música, percebia que estava acordada. Com sorte, amanhã o dia também será facil.

Gatos e Tapetes

Dona Augusta vivia sozinha. Dera um tempo da vida, matar o cansaço. Ninguém a conhecia. É claro, sabiam seu nome, endereço e signo do zodíaco. Cidade pequena deixa pouco espaço para segredo. A cidade falava, aliás, muitas coisas. Que D. Augusta abandonara seus filhos, que havia fugido da Espanha e até que vivia com o corpo embalsamado do marido. No armário. Ouvia-se dizer até que D. Augusta já havia amado. De verdade, algo além de seus gatos e crochês, mas que terminaria a vida à própria sorte. Perdeu tudo em alguma guerra ou briga de bar _ pouco se sabia dos detalhes. E muitas são razões para ela ter desistido. Ninguém acreditava, porém, que ela estava bem. Que a essa altura, seus gatos e tapetes já importavam mais do que o resto. Ou, ao menos, ninguém precisaria saber mais do que isso sobre Dona Augusta.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Microondas

Anna Clara sempre gostou de passear a pé. As pedras, calçadas quebradas, buzinas e cheiro de rua. Aquele cheiro que varia com o dia.
De manhã, cheira frio. Depois, almoço. A tarde a rua cheira barulho e, no fim do dia, suor.
Quanta gente se atropelando para chegar em casa as seis, ver a mulher, os filhos, o cachorro, o jornal, o feijão, a cerveja e a cama.
Anna Clara se fascinava com essas vidas normais, rotina de gente. Sabia já ter ingressado nesse mundo, de ser gente normal.
 Porém, poucos amavam ver o movimento como ela. A beleza da rua, os sentidos... Ainda assim, às seis ia para casa comer feijão com sua família.
Hoje, requentado.

Uma Noite ou Seis

Por que o tempo sempre foi um problema. Para João, ele vinha em lapsos.
Os minutos se apagavam. Sua vida parecia a falsa memória de um sonho, quando faltam pedaços para fechar a lógica de uma história, e você se dá conta de que chegou em uma praça sem lembrar do caminho até ela. Sem lembranças, as coisas ficam confusas.
É difícil nao saber como tanta terra fora parar em seu sapato, onde estão suas calças ou como aquela mulher fora parar em sua casa. Era até bonita, estava em seu tapete. Mulher já madura, enxuta, a saia pelo umbigo.

Que se danassem as memórias, pelo menos sabia que havia gozado toda a noite.

Mate, mato.

Enquanto a gente senta e toma um mate, os homens do céu a puxam para cima, ali fora no quintal. Perdemos tempo pensando sobre o tempo.
Há semanas não chove, tem feito calor.
Há homens comendo, bebendo e fodendo.
E eu pago seu salário, lhes dou o melhor.
A bebida faz o tempo passar,
o cigarro aumenta o calor.
Ali fora, no quintal, tem feito uma luz forte.
 Os homens do céu desceram para passear. Arranjo um lugar, ao meu lado nesse banco.

Proselitismo

Sabe-se lá o que é certo, o que é razão. Se as ruas tem seus buracos, e os telhados, e os botões e as mulheres, vivemos nesse universo torto e vazado. 

Já repeti muita merda, reparei ainda mais. Histórias e aventuras de mau cheiro. Poucas vezes alguém se vale do que é certo. Importa mesmo a eloquência. 

Na Europa os relógios. Pouco abaixo, o calor. Norte da América os inventos. Vejo mesmo um monte de ismos e istas. Que Zeus salve as sociais, culturais e intelectuais elites.


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Arte de ignorar o ódio. Bons nisso somos os solitários.